Os Simpsons – Caipiras Cantantes

Análise de um dos personagens de Os Simpsons – Caipiras Cantantes a partir dos temas abordados na aula Freud – 1. Acadêmico: Sérgio Ricardo Rezende

1. Introdução

Os Simpsons, série animada norte-americana, retrata a vida de uma família de classe média urbana em uma pequena cidade dos Estados Unidos. Homer Simpson, Marge Simpson e seus filhos Bart, Lisa e Maggie são seus principais personagens os quais, através de suas relações e dramas vividos, servem para uma inteligente crítica à sociedade de consumo e seus subprodutos, Wikipédia, 2019.

De forma muito resumida, podemos dizer que o Episódio 14 – Caipiras Cantantes trata como enredos principais as sessões de terapia impostas a Bart, após ele provocar uma grande confusão por uma mentira contada na escola, e as aventuras de Lisa como professora particular de um grupo de caipiras.

Uma vez que os demais personagens são pouco explorados nesse capítulo, para uma análise mais rica e proveitosa, nos resta focar em Lisa ou Bart, os quais vivenciam dramas e relações mais propicias para um debate. Nesse trabalho, optei por elaborar uma resenha sobre Bart Simpson.

Num primeiro momento, baseado no evento ocorrido na escola, tentarei fazer um paralelo com as bases da Psicoterapia formulada por Freud, especificamente quanto a estrutura da mente, as fases psicossexuais e a formação do Id, Ego e Superego.

Posteriormente, a partir dos acontecimentos nas sessões de terapia do personagem, explorar alguns temas abordados em aula, tais como resistência, transferência e associação livre.

2. Bart Simpson e as bases da Psicoterapia: consciente, inconsciente, Id, Ego, Superego e as fases psicossexuais.

De acordo com Freud, as patologias mentais devem ser analisadas a partir do princípio de que o aparelho psíquico está dividido em três extratos que definem os níveis de consciência: o consciente, o subconsciente e o inconsciente. Considerando que cada uma dessas estruturas possuem um lugar bem definido e estão interligadas, suas inter-relações implicam diretamente na formação da personalidade, a qual se revela através dos elementos denominados de Id, Ego e Superego.

A forma e a intensidade com que esses três elementos interagem, bem como o equilíbrio entre eles, vai determinar o comportamento, definindo nossa maneira de se relacionar com o mundo exterior.

Numa primeira análise, temos a tendência de qualificar Bart como uma personalidade na qual o Id se sobrepõe ao Ego e Superego, a chamada pessoa Idílica. De fato, a forma inconsequente como o personagem age para a obtenção de comida, inventado uma pavorosa lenda sobre o cozinheiro Stanley para assustar os colegas, indica um total domínio do Id sobre o Ego e ausência de atuação de um Superego, não havendo nenhuma barreira moral e ética na conduta, apenas a busca da satisfação do prazer ou da pulsão advinda do Id, sua porção inconsciente.

Contudo, ao fazermos isso podemos ser precipitados ou, ao menos, fazer uma análise incompleta. Pois vejamos a proposta de Freud para a teoria da sexualidade onde, a partir do conceito da libido, o substrato da pulsão sexual, o autor descreva as fases do desenvolvimento psicossexual do indivíduo que levam ao desenvolvimento da personalidade adulta.

De acordo com o pesquisador, para que a personalidade de uma pessoa possa estar formada são necessárias cinco fases distintas e bem demarcadas: oral (0-1 ano), anal (1-3 anos), fálica (3-6 anos), latência (6-puberdade) e genital (puberdade-morte), Alves, 2018.

Ora, no seriado “Os Simpsons” Bart é retratado como um menino de 10 anos e que, portanto, de acordo com Freud, estaria ainda em processo de amadurecimento biopsicossocial, posicionando-se na fase de latência. Durante esta fase, o superego ainda está em formação e as pulsões do Id ainda não estão totalmente controláveis. Nesse estágio, as habilidades sociais da criança ainda estão se desenvolvendo através do contato com família, colegas de escola e outros adultos do seu convívio.

Assim, embora seu comportamento leve a isso, determinar Bart como uma personalidade Idílica mostra-se prematuro já que ele ainda pode, dependendo das interações sociais e de sua evolução no amadurecimento psicossexual, ter um melhor equilíbrio, permitindo que Ego e Superego atuem para amenizar e controlar as energias do Id.


3. Bart Simpson e o processo psicanalítico: resistência e transferência

Resistência e transferência são mecanismos de defesa apresentados pelo indivíduo e que, segundo Freud, são fundamentais no processo psicanalítico, Cunha e Martins, 2012.

A resistência pode ser descrita como uma ação consciente, portanto do Ego, mas com origem no inconsciente, que atua para que sejam mantidas intocadas as causas dos sintomas psíquicos, ou seja, os obstáculos que se impõem ao tratamento psicanalítico. Em resumo, é uma proteção imposta para que sejam mantidas no inconsciente todas as experiências e emoções que foram recalcadas.

O comportamento inicial de Bart diante da terapeuta, negando ou evitando o estabelecimento de uma relação com ela e menosprezando terapias anteriores podem ser vistos como resistências.

Já a transferência se estabelece quando o paciente transporta para seu terapeuta sentimentos, desejos e emoções vividas e que habitam seu subconsciente e inconsciente, muitas vezes recalcadas. Ela se dá de forma inconsciente e é parte essencial no processo de cura podendo ser positiva, facilitando o tratamento, ou negativa, quando então assume o caráter de uma resistência, Santos, 1994.

A forma mais comum de transferência e a mais retratada é aquela onde o paciente desenvolve uma afeição de caráter nitidamente sexual pelo terapeuta, sendo justamente esse tipo o desenvolvido por Bart Simpsn. Ele passa a sonhar com sua analista, persegui-la para observá-la, chegando a sentir ciúmes da relação dela com outros pacientes.

Outro detalhe interessante para observar nessa parte do episódio e a técnica da associação livre utilizada pela profissional para que Bart exponha seus traumas. E através dela que se revela um provável complexo de Édipo não superado, já que fica claro que há um conflito de Bart com o seu pai.


4. Conclusão

Em um único episódio da série animada Os Simpsons pudemos fazer uma revisão e análise de uma série de conceitos formulados por Freud, explanados em nossa primeira aula, e que são considerados a base da Psicanálise. De forma inteligente, criticamente ácida, os autores nos permitem observar as estruturas que compõe o psíquico e a sua atuação na formação do caráter, notadamente o Id, o Ego e o Superego. Também expõe com clareza a prática da psicanálise, através das técnicas e as relações que se estabelecem entre terapeuta e paciente.


Referências:

  • Wikipédia, “Os Simpsons”, 2019, disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Os_Simpsons, acesso em 06 de maio de 2019.

  • Alves, Caion, “As 5 fases do desenvolvimento psicossexual segundo Freud”, 2018, disponível em https://www.opas.org.br/as-5-fases-do-desenvolvimento-psicossexual-segundo-freud/, acesso em 7 de maio de 2019.

  • Cunha, Ludmila P. e Martins, Geraldo M., “Resistência e Transferência no Processo psicanalítico”, 2012, disponível em http://npa.newtonpaiva.br/psicologia/e3-15-resistencia-e-transferencia-no-processo-psicanalitico/, acesso em 7 de maio de 2019.

  • Santos, Manoel A. dos, “A transferência na clínica psicanalística: a abordagem freudiana”, 1994, disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttextπd=S1413- 389X1994000200003 , acesso em 9 de maio de 2019.

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