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“O caso do pequeno Hans”

Acadêmica: Cristiane Câmara Araújo


O estudo de caso do menino Hans foi publicado em 1909 e intitulado “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos”, tornando-se o marco da Psicanálise com crianças. O referido caso surgiu em um momento no qual Freud almejava que a observação de crianças confirmasse as hipóteses sobre sexualidade infantil lançadas em 1905, notadamente pela obra “Ensaio II – A sexualidade Infantil”, bem como a questão do conflito edípico como o estruturador da neurose, ressaltando que no ano de 1906 Freud já havia tratado da sexualidade infantil e sua estrutura em torno do Complexo de Édipo.

Conhecido como “O caso do pequeno Hans”, esse é o estudo de caso de uma criança do sexo masculino, que, aos 5 anos de idade, desenvolveu grande fobia a cavalos, que antes eram objetos de brincadeiras do menino. Hans era filho do musicólogo Max Graf, amigo de Freud, e da atriz Olga König, que foi paciente de Freud. O estudo do caso surgiu a partir do encorajamento de Freud a seus amigos para que observassem o comportamento sexual de seus filhos com a intenção de investigar a mente das crianças no caminho de descobertas da Psicanálise. Curiosamente, Freud teve apenas um encontro com o menino Hans; Freud recebia as informações sobre o garoto a partir das cartas que recebia do pai do menino, Max.

Segundo informações repassadas a Freud por Max, aos três anos de idade o menino possuía grande curiosidade sexual, principalmente sobre o órgão genital das pessoas e até objetos que o cercavam: seus pais, dos animais e outros. Segundo Lacan, antes do surgimento da fobia, Hans fantasiava muitas vezes sobre o falo e indagava à sua mãe, chegando a dizer a ela que “se você tem um faz-pipi (modo como Hans chamava o órgão sexual), deve ter um faz-pipi muito grande, como um cavalo”. Aqui percebemos que Hans está situado na fase psicossexual que Freud denominou como fase fálica, onde o falo representa não somente órgão sexual, mas também símbolo de poder e disputa.

À mesma época do desenvolvimento da fobia, o menino manifestou grande angústia em separar-se da mãe. Durante um passeio com a babá, estando a mãe ausente, ele expressou a falta que sentia de sua mãe e então passou a apresentar a fobia por cavalos, especificamente, tinha muito medo de ser mordido por cavalos, em seus dedos, o que foi associado ao mal-estar que o garoto sentia em tocar seu genital durante a masturbação.

A simbologia do cavalo parecia estar relacionada a uma brincadeira que Hans fazia com outras crianças, durante a qual Hans utilizava o termo “por causa de cavalos”, pelo que Freud analisou a semelhança das expressões alemãs wegen (por causa de) e wagen (veículos), ambas usadas por Hans e que pareciam explicar a extensão da fobia de Hans tanto em relação aos cavalos quanto a carroças e outros veículos, posteriormente. Diante disso, Freud destacou que “jamais se deve esquecer como as crianças tratam as palavras, mais concretamente do que fazem as pessoas adultas e, em consequência, como também lhes são tão significativas as semelhanças sonoras das palavras. ”.

O garoto, que dormia com seus pais, alimentava fantasias eróticas com sua mãe, sobretudo nos momentos de ausência do pai, a quem ele amava, admirava e com quem brincava, e de quem também necessitava como figura castradora para barrar os desejos que ele alimentava pela mãe. Está representado aqui o Complexo de Édipo, na qual o objeto do sexo oposto para obtenção de prazer é a mãe. Os dedos de Hans, que segundo suas fantasias eram mordidos e arrancados pelo cavalo, podem ser interpretados como representação do falo, e identificamos aqui o medo da castração. O pai, simbolizado pelo cavalo, é a figura castradora que colocará fim às fantasias edipianas de Hans, promovendo o rompimento, ou corte do complexo.

Freud relata que o menino sentia não somente medo de seu pai, mas também medo por seu pai, demonstrando toda a complexidade da fase, pois mantém sente rivalidade e necessidade de ausência do pai para desfrutar da mãe, mas ao mesmo tempo necessita do amor e da identificação com o pai. O menino passou então a ter medo de carroças, carroças desgovernadas, de cavalos caindo.

O nascimento de Hanna, irmã de Hans, levou o menino a deparar-se com a diferença entre os sexos e com um distanciamento da mãe, que o levaram a rejeitar as teorias que explicavam a geração e o nascimento da criança, como a cegonha, por exemplo. Freud percebeu que a fobia do menino girava em torno da questão da origem e do desejo, e que o temor posterior a caixas, banheira, carroças e o temor pela queda de objetos era o modo da criança elaborar essas questões, que fazia com que ele construísse explicações às suas indagações. Através de suas fantasias e brincadeiras, Hans ressignificou suas angústias, a exemplo da fantasia do bombeiro, na qual Hans disse: “eu estava no banho, e então veio o bombeiro e desparafusou a banheira. Depois ele pegou uma grande broca e bateu no meu estômago”. Freud associou a banheira ao ventre, a grande broca ao pênis e o desparafusar à abertura.

Utilizando brincadeiras para compreender a situação, Hans foi reorganizando o que sentia, imaginando que ele se casava com a mãe, assim como seu pai havia casado com a mãe dele, avó de Hans. A fantasia do bombeiro também foi alterada, de forma que Hans relatou que o bombeiro retirava suas nádegas e seu pênis, substituindo-os por outros, que eram novos e maiores que os primeiros, superando assim o medo da castração.

O episódio confirmou as hipóteses de Freud sobre o conflito edípico, girando em torno do desejo do menino por sua mãe e, ao fim, comprovou não somente suas hipóteses acerca das fases psicossexuais e do Complexo de Édipo, como também estruturou a possibilidade do manejo psicanalítico com crianças.

A análise do pequeno Hans foi possível devido à boa comunicação verbal e à grande imaginação de Hans, que sabia comunicar com clareza o que pensava e sentia. Em 1908 Freud escreveu “Escritores criativos e devaneio”, comparando a brincadeira de uma criança e a atividade do escritor, uma vez que ambos criam uma nova realidade, reorganizando os elementos maneira que lhes seja mais agradável. As fantasias e brincadeiras da criança seriam então recursos de enfrentamento e reorganização da realidade conforme o princípio do prazer, ocupando lugar central na estruturação psíquica da criança. Sobre o tema, em 1920, Freud escreveu “Além do princípio do prazer”, no qual novamente fala do brincar como sendo um mecanismo de enfrentamento de uma experiência traumática através da simbolização do jogo, usando como exemplo, o jogo de aparecer e desaparecer (fort-da) que seu neto de um ano e meio utilizava para representar a ausência da mãe.

Os pós freudianos continuaram a trabalhar com essa ideia. Hermione von Hug-Hellmuth pioneira da prática psicanalítica com crianças, situada entre Freud e Anna Freud e que geralmente não é reconhecida, também valorizou a utilização do brincar e da ação simbólica como meio de permitir o desvelamento dos sintomas e da problemática das crianças.

Anna Freud, em sequência, defendeu que a análise e a verbalização lidam com sentimentos, levando ao amadurecimento do Ego. A análise seria ajuda e companhia durante a maturação da criança. Anna Freud defendeu ainda o apoio dos pais ao trabalho de análise realizado com a criança, o que podemos ver com bastante clareza no caso do pequenos Hans, já que o próprio pai do menino se comunicava com Freud, seguindo suas orientações e valorizando o processo em uma época na qual o estudo da sexualidade infantil enfrentava grandes barreiras. Certamente o envolvimento e apoio dos pais foi fundamental ao sucesso do caso.

A aliança terapêutica, cooperação da criança com a analista, também é ponto destacado por Anna Freud na Psicanálise com crianças. Freud relata que na única consulta realizada o pequeno Hans descreveu todo o medo que sentia dos cavalos. A caminho de casa, Hans diz ao pai que Freud parecia conversar com Deus, pois parecia saber de tudo, antecipadamente!

Podemos ainda fazer comparações entre o caso do pequeno Hans e as afirmações de Melanie Klein, que manteve o Complexo de Édipo no eixo central da Psicanálise, embora tenha situado o seu surgimento no início da vida da criança, diferente de Freud. Ressalta-se ainda que tanto Melanie Klein quanto Winnicott estabeleceram o brincar como “pedra angular” da análise psicanalítica com crianças. Klein entendeu que o brincar das crianças equipara-se à associação livre utilizada com adultos, sendo por meio deste brincar a simbolização de fantasias e angustias. Winnicott defendeu que tamanha é a importância do brincar que este deveria ser tomado como um tema em si mesmo.


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