Mecanismos de Defesa do Ego: Análise da Fábula “A Raposa e as Uvas”

O que se observa no caso da fábula, é uma tentativa inconsciente do Ego de justificar falhas de sua própria conduta: um dos mecanismos de defesa da personalidade, a racionalização. Por ele, procura-se desculpas e explicações que inocentem erros e fracassos. Acadêmica: Rejane Pereira Lobo

É a ele, Sigmund Freud, o criador da psicanálise, que deve-se o conceito da existência do inconsciente, cujas manifestações o grande médico e escritor estudou extensamente. E foi, então, a partir dessa constatação, que Freud abriu o vasto e instigante campo para a compreensão dos mecanismos psíquicos.


Os “mecanismos psicológicos de defesa”, segundo Freud, são empregados pelo psiquismo para diminuir a angústia de conflitos interiores e, com isso, preservar o Ego – a instância do psiquismo responsável pelas relações com o ambiente.


Através dos séculos, a escrita se revela portadora do desassossego, essa estranheza que toma corpo na literatura, nos contos, nas fábulas, revelando o olhar inventivo do escritor em relação à sua realidade e ao seu tempo. Pode ser uma obra literária, ou uma fábula, ambas podem se revestir como uma formação de saber e de conhecimento da alma humana, o que propicia um diálogo, uma fruição maior do leitor e seu objeto. Nessa medida, o que se deve buscar é uma compreensão da escrita, dos afetos que ela provoca em nós, como o que desejava Freud.


Uma pequena fábula pode falar ao nosso consciente e ao nosso inconsciente e, por conseguinte, tornar-se incomensuravelmente grande quando trata das verdades de cada um e das sintomatizações que carregamos, lidando de forma imaginativa com as proposições mais importantes sobre desenvolvimento em nossas vidas. Conforme vão sendo recontadas, as fábulas vão se tornando cada vez mais refinadas, passando a transmitir significados manifestos e encobertos.


A Psicanálise, desde Freud, tem se valido da herança grega para melhor compreender a psique. Desde a Grécia antiga, já havia autores dotados de uma apurada sensibilidade em mesclar imagens poéticas e de humor, um deles era Esopo. Dono de uma inteligência rara, o fabulista e grande sábio criou histórias simples e divertidas, com lições moralistas, que eram verdadeiros retratos da sociedade, inspirando autores até hoje, como é o caso da fábula analisada a seguir.


Na análise da fábula “A Raposa e as Uvas”, é clara a mensagem de que as dificuldades podem parecer sem solução, mas, lutando corajosamente com essas complexidades emocionais, é possível conseguir uma vida muito melhor do que a dos que nunca se conturbaram com problemas graves. Para superar nossos próprios limites ou pontos falhos, é absolutamente imprescindível reconhecê-los, depois aceitá-los.


A raposa, ao avistar a videira, não resiste ao impulso de colher os exuberantes cachos de uvas. Sem poupar esforços, utilizando todos os seus dotes, conhecimentos e artifícios, tenta pegá-los. Depois de muito tempo, desolada e cansada com o insucesso de sua empreitada, finalmente se dá por vencida. Desapontada com seu fracasso, ao avistar uma ave que a observava, se justifica e consola a si mesma: "Na verdade, olhando com mais atenção, percebo que as uvas não estão tão maduras como imaginei..."


Segundo Anna Freud, os mecanismos de defesa não são apenas uma medida de proteção inconsciente para impedir que o indivíduo se conecte com seus desejos instintivos vorazes. Eles também vão protegê-lo da ansiedade de enfrentar suas fraquezas.


O que se observa no caso da fábula, é uma tentativa inconsciente do Ego de justificar falhas de sua própria conduta: um dos mecanismos de defesa da personalidade, a racionalização. Por ele, procura-se desculpas e explicações que inocentem erros e fracassos. A raposa cria uma justificativa falsa para não reconhecer a justificativa verdadeira. Quando não há reconhecimento ou aceitação das próprias limitações, o indivíduo perde a oportunidade de corrigir suas falhas.


Mecanismos de defesa são armas utilizadas pelo ego em sua luta contra perigos intrapsíquicos e extrapsíquicos (ou ambientais); são técnicas diferentes que o ego emprega em sua luta contra as exigências instintivas. Para Freud, a defesa é a operação pelo qual o Ego exclui da consciência conteúdos indesejáveis.


Ainda segundo o pai da psicanálise, os mecanismos de defesa são universais, ou seja, todas as pessoas fazem uso deles, em menor ou maior grau. E eles são importantes para um ego sadio e integrado. Porém, o seu uso exacerbado pode ocasionar um funcionamento psicológico que não é considerado sadio.

Bibliografia:

  • FREUD, S. (1894). As Neuropsicoses de Defesa. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 3. Rio de Janeiro: Imago, 1990

  • BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

  • Apostila do curso de Formação em Psicanálise Clínica, T3/2018. Academia de Terapeutas. Mecanismos de Defesa.

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