Filme: As coisas impossíveis do amor

É a história de uma mulher devastada pela perda do seu bebê recém-nascido, que desencadeia diversos conflitos entre uma família. Acadêmica: Nara Cristina Silva Lima

Natalie Portman interpreta uma advogada, Emília, casada com Jack (Scott Cohen), o qual conheceu na época em que ele era casado e começaram a ter um relacionamento.


Os dois se casam, mas infelizmente, sua vida toma um rumo inesperado quando os dois perdem sua filha recém-nascida e Emília passa a lutar para superar a dor, tentando criar um laço afetivo com seu enteado William (Charlie Tahan).


Ela também tenta superar suas divergências com seu pai, causadas por infidelidade (o pai teve um romance com a secretária, o que resultou no fim do casamento de seus pais), já que também se sente traída, além de ter que suportar os dramas de Carolyn (Lisa Kudrow), a ex-mulher do seu marido.


É a história de uma mulher devastada pela perda do seu bebê recém-nascido, que desencadeia diversos conflitos entre uma família – o relacionamento de uma madrasta com um garoto que não sabe de que lado está, tendo que conviver com a relutância do mesmo em torno do novo relacionamento do pai, um marido que tenta apaziguar os ânimos do seu lar e sua mãe que foi traída e, a princípio, tenta controlar as coisas à sua volta.


Além dos conflitos em sua própria casa e o luto, Emília carrega o fardo da culpa, pois acredita ter sufocado sua filha ao dormir enquanto a amamentava, mas esconde este fato do marido e da equipe médica que atendeu ao chamado, relatando que logo que a filha dormiu, ela a colocou no berço e que a encontrou desacordada.


O luto pela perda de uma família estruturada e as transformações da nova família são mostradas no comportamento do enteado William, da ex esposa e do marido que tenta estruturar sua nova família fazendo com que Emília e William consigam conviver.


Os primeiros momentos sugerem que o enteado de Emília é apenas um menino mimado que implica com a madrasta, cutucando a ferida aberta de seu luto. O garoto é inteligente, mas resiste à nova situação e sente a dificuldade na relação com a madrasta. No desenrolar do filme, percebemos que ele também elabora seu luto, seja das transformações familiares ou da perda da irmã, que o estava ajudando a configurar sua nova família.


Os conflitos vividos por Emília, no processo de luto atual, provocam a revisão de questões de sua família de origem. Assim, as situações abertas ou inacabadas do passado ressurgem, emergindo na relação com seu pai e todos à sua volta, numa busca frenética de fechamento.


Em uma discussão com seu marido, Emília decide dizer-lhe porque seu luto é tão intenso, revelando a ele que a culpa pela morte do bebê é dela, pois estava em seus braços e não no berço, como havia dito anteriormente. Tal revelação levou o casal à separação. Emília prossegue sozinha com a culpa e acaba se reconciliando com seu pai.


Algum tempo depois, Emília é chamada pela mãe de William, que faz uma revelação a pedido do filho: relata que analisou o laudo de autópsia do bebê que revela que a mesma não morreu de asfixia e sim de morte natural, portanto, Emília não era culpada. Emília fica fragilizada e tenta uma reconciliação com o marido, mas não consegue.


Apesar da tentativa ter sido fracassada, Emília segue, como uma nova mulher, livre da culpa que a atormentava. Tenta levar sua vida da maneira mais natural possível e acaba estabelecendo uma relação muito boa com seu enteado.


Certo dia, foi chamada pelo ex para convencer o enteado a participar da cerimônia de casamento de sua mãe, pois o menino ainda estava confuso com toda essa situação e inseguro quanto à nova família, na verdade, a terceira versão de família que estava prestes a vivenciar e pediu para vê-la. Ela entra no carro juntamente com o ex, e conversa de maneira amorosa e maternal com William convencendo-o de ir à cerimônia. Jack, o ex marido, fica encantado com a mudança de comportamento dela e a convida para jantar, ela aceita o convite e o filme termina com a perspectiva de uma reconciliação.


Ao longo de toda a trama vários arquétipos foram visualizados, tentei relacionar os mais importantes no contexto da atriz principal.


“Arquétipos são conjuntos de ‘imagens primordiais’ originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo.” Carl Jung


Em seu pensamento, Jung irá dialogar com muita frequência com a dialética. O psicólogo irá dizer que as pulsões humanas devem buscar uma síntese entre os opostos. Assim surge um conceito fundamental em seu pensamento, a sombra.

Para Jung, a sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. Representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos.


A metáfora de Jung parte da ideia de sua materialidade. A sombra é o oposto da luz e, traduzindo para como se manifesta na mente humana, a sombra é o oposto daquilo que aparece, daquilo que desejamos ser, que nos apresentamos. Para tal luz Jung dá o nome de Persona, nome bastante conveniente.


Personas, no teatro grego, são as máscaras que cobrem o rosto dos atores e permite com que estes sejam o que desejam apresentar, escondendo o que está por trás, a sombra em Jung. A sombra, contudo, não é uma mentira (nem mesmo a máscara), manifesta a natureza humana presente, mas escondida pela máscara que a cobre. Assim, o processo de busca pelo que realmente somos (a individuação) vem do embate com nossa sombra, a busca pela natureza do ser. Para Jung, não nos resumimos ao que inconscientemente desejamos aparentar.


A sombra é mais perigosa quando não é reconhecida por seu portador. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou deixar-se dominar pela sombra sem o perceber. Emília, acusa o pai de traição e não o perdoa, pois ele teve um caso com a secretária. Futuramente ela repete o comportamento negativo do pai, relacionando-se com um colega de trabalho casado, e até casa-se com ele, o que revela a constelação do arquétipo da sombra.


Ao relacionar-se com o enteado, ela o faz cometer pequenos delitos como tomar sorvete sendo que tem intolerância à lactose, alegando que tem um “pozinho mágico” que não o deixará se sentir mal e pedindo que este acontecimento seja um segredinho entre eles, pois no convívio com os demais da família fica evidenciado o arquétipo da persona, ( ela não representa uma madrasta do mal, somente uma madrasta comum, que não demonstra sentimentos por seu enteado, nem bons nem ruins, é indiferente ). Ela também o leva para patinar no gelo sem usar o capacete, o que para ele seria “errado”. Este comportamento deixa claro mais uma vez o arquétipo da sombra. Emília comete suas “maldades” sem ser vista por adultos, talvez de maneira inconsciente, pois não se percebe a intenção de prejudicar o enteado.


No momento em que ela conversa com William, convencendo-o a participar do casamento da mãe, ela revela o arquétipo da grande mãe. Também fica claro este arquétipo em uma cena onde ela dá de presente a William um barco que foi seu, que seu pai o deu quando ela tinha 10 anos, demonstrando todo o seu amor pelo enteado e ainda diz ser um presente de aniversário. William lembra a ela que faltam 32 dias para o seu aniversário que não entendeu. Ela diz então que este presente é pelo aniversário do irmão dele, filho de sua mãe com o padrasto dele, fazendo-o refletir o quanto seria importante ele aceitar o novo irmão. A cena termina com os dois declarando amor um ao outro.


Para Jung “O conceito de Grande Mãe provém da História das Religiões e abrange as mais variadas manifestações do tipo de uma Deusa-Mãe.


O arquétipo da Grande Mãe relaciona a mulher com suas funções maternais, tanto biológica quanto espiritualmente.


Reencontrar o arquétipo materno da grande mãe significa a volta a uma condição psíquica passada primária.


É notável que a personagem está em processo de individuação, bem próxima de alcançar o Self. Jung considerava o self o mais importante arquétipo de seu sistema. Equilibrando todos os aspectos do inconsciente, o self proporciona unidade e estabilidade à personalidade. Ele tenta promover a integração da personalidade e pode ser comparado com um impulso para a autorrealização ou auto atualização.


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