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Estudo de caso - Monalisa

Já que Monalisa inconscientemente amou, desejou e esperou uma relação com o pai que não foi correspondida, esta se vê oscilando entre o Amor, quando cuida dos irmãos, da mãe e da casa, e o Gozo, quando é necessário que seu lado controlador e autoritário aflore. Acadêmico: Alexandre de Miranda

Monalisa é o nome fictício de uma analisanda que passou por situações adversas durante sua vida e que buscou atendimento por meio da psicanálise. Dentre essas situações: um relacionamento conturbado entre seu pai e sua mãe; a separação dos seus pais; falta de amor do pai para com ela e com a família; necessidade de cuidar dos irmãos e até da sua mãe; e a entrada em um quadro depressivo quando estava atingindo seu melhor desempenho profissional, como advogada.

Colocando-me na posição de analisa, interpretaria o caso da Monalisa de acordo com as escolas Freudiana e Lacaniana, e somaria a essa avaliação conceitos Junguianos.


Primeiramente, é claro, o estudo de caso é menos rico do que a quase uma centena de sessões realizadas pelo analista e analisanda. Por isso, levanto algumas questões que possivelmente foram tratadas nas sessões, mas que não puderam constar no caso.


Como deveria ser a relação da mãe de Monalisa com seu pai anteriormente ao seu nascimento? A pergunta é importante, pois se tomarmos Lacan, consideramos que somos fruto de uma "linguagem" anterior a nós mesmos. Antes do nosso nascimento, parte da "linguagem" que seremos já está "programada". Sob um olhar de Freud, a pergunta poderia ser: como o casal contribuiu para o "superego" que ajuda a moldar quem é Monalisa? Ou sob a ótica de Jung, poderíamos perguntar: como a relação dos pais se insere nos complexos que afetam a vida de Monalisa?

Sendo mais claro e procurando me manter próximo à visão desses pensadores, poderia dizer que Monalisa carrega também um histórico psíquico dos seus pais e das suas relações.


Após o nascimento de Monalisa, podemos ver que esta passou por situações conflituosas, principalmente, em relação a seu pai. Posso invocar aqui o conceito Lacaniano do Nome do Pai, aquele que mostra ao novo ser, ao Outro que é Monalisa, a Lei. E em quem a criança Monalisa depositaria inconscientemente a esperança de receber as diretrizes de autoridade e os direcionamentos para sua vida. O pai é o Outro para Monalisa, de quem seu inconsciente deseja e espera receber seus limites. Pelos olhos (e ouvidos) de Freud, podemos supor que o pai a quem Monalisa deseja, no complexo de Édipo, é aquele que não corresponde a seu amor, criando uma situação de anormalidade. O mesmo pode ser inferido por Jung se analisarmos arquétipos como o do pai e do herói.


Essa é uma tese inicial, que o próprio estudo de caso aponta como possível, dada a importância com que aparece a relação de Monalisa com o pai, mãe e irmãos.

Outro ponto a ser destacado é o peso como as transferências vão acontecendo ao longo da vida de Monalisa, inclusive junto a seu analista. Ora se coloca no papel da mãe, como cuidadora da família; ora no lugar dos irmãos; ora quer tomar o controle junto ao analista. Levanto a hipótese: se todas essas transferências não seriam no fundo um desejo de se colocar no lugar do pai, pai esse que não cumpriu seu papel psíquico.


Já que Monalisa inconscientemente amou, desejou e esperou uma relação com o pai que não foi correspondida (e veja que o pai está repetindo uma "não correspondência" que já acontecia em relação a sua esposa, a mãe de Monalisa), esta se vê oscilando entre o Amor, quando cuida dos irmãos, da mãe e da casa, e o Gozo, quando é necessário que seu lado controlador e autoritário aflore. Essa oscilação, possivelmente, contribui para o quadro de angústias da Monalisa.

Um último ponto que destaco é o agravamento do quadro depressivo justamente quando Monalisa se encontrava em uma posição de sucesso profissional. Aqui, gostaria de trazer a visão de Lacan, de Objeto a, que é o objeto parcial de nossos desejos. Monalisa amou e desejou seu pai, amor esse que nunca obteve de uma maneira normal. Seu pai é também uma figura do Outro, que de certa forma é o Outro que Monalisa desejava ser. Lacan coloca uma questão frequente, de que justamente quando estamos prestes a alcançar o Objeto a pode ocorrer uma espécie de mecanismo de defesa para retrocedermos. Exemplo disso, são as inúmeros entrevistas de emprego em que aqueles mais bem preparados e que estariam mais aptos a conquistar a vaga desejada são tomados por crises de pânico ou de ansiedade fazendo-os não alcançar a oportunidade. Ou o amante que não consegue se declarar à amada quando está na situação mais propícia possível para que a declaração aconteça.


E por que essa pode ser outra hipótese válida para Monalisa? Ao ser bem sucedida poderia de fato ter alcançado uma "posição de pai", posição do "pai líder", posição do "pai provedor", posição do "pai profissional de referência" ou do "pai chefe". Talvez essas posições fossem aquelas que mais seu Eu desejasse. Acontece que, neste momento, no seu inconsciente poderiam estar emergindo todos os traumas pelos quais passou. E seu inconsciente poderia a estar levando para outra posição, aquela tão desejada na infância: posição de criança a ser cuidada pela mãe e pelo pai. Contrariando seu Eu, seu inconsciente a leva para uma posição de acamada. Se o Eu prevalecesse, talvez ela poderia se tornar verdadeiramente mais parecida com seu pai, aquele que não ama, aquele mais tendencioso para o lado psicótico, para o lado do Gozo, mas não foi isso que seu inconsciente queria.

Todas as teses acima são levantadas no intuito de levar Monalisa a seu autoconhecimento, para poder lidar com todas as emoções envolvidas. A resposta a cada uma delas viria nas análises de associações livres, de sonhos e chiste, buscando assim um equilíbrio, que poderia ser considerado por Jung como o desenvolvimento do Self; ou por Freud, a busca por não se fixar nem no Gozo psicótico nem no Amor neurótico; ou por Lacan, o entendimento de qual linguagem sou.

Referências:

  • DE FARIA, Lúcio e DA Silva, Marlene Euclides. FREUD 1 - VIDA, OBRAS, APARELHO PSÍQUICO E FASES PSICOSSEXUAIS. Academia de Terapeutas. Brasília - DF.

  • DA Silva, Marlene Euclides. INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA ANALÍTICA DE CARL GUSTAV JUNG - parte 2. Academia de Terapeutas. Brasília - DF.

  • JORGE, Marco Antonio Coutinho. FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE, DE FREUD A LACAN. Vol. 2. Ed. ZAHAR. Rio de Janeiro - RJ. 2010.

  • QUINET, Antonio. OS OUTROS EM LACAN. Ed. ZAHAR. Rio de Janeiro - RJ. 2012.

  • VIEIRA, Sheyla Almeida. ESCOLAS PSICANALÍTICAS. Academia de Terapeutas. Brasília - DF.

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