Análise Junguiana do Sonho

Acadêmica: Silvana Souza Silva Alves



O sonho

“Eu estava na casa da minha vó na 1º sala. Estávamos velando o Tio Laerte (falecido em outubro/2018). Todos choravam muito e eu estava arrasada ( triste e chorando ). Estavam presentes* meu Tio Nieldo e minha irmã Juliana. Eles não estavam presentes no velório de outubro/2018, foram às pessoas com quem eu mais falei no dia do velório. O Tio Nieldo no celular chora muito porque ele foi avisado por whatsap e fica o tempo todo falando que ninguém se lembra dele, que ele é excluído da família... etc. O Tio Lamilton (irmão do Tio Laerte) estava no quarto onde o Tio Laerte faleceu, deitado e triste, inconformado. A atual companheira do Tio Neguim (irmão do Tio Laerte) levou um caldo o tio Lamilton, e falava: “gente ele não comeu nada, ele esta muito fraco, não levanta da cama desde a hora da notícia”. E o Tio Neguim, confirmava: “Lamilton está muito fraco”. A atual companheira volta e fala: “ ele colocou duas colheres na boca na marra e esta fazendo ânsia de vômito”. Eu estou na sala que fica de frente para esse quarto e o caixão do meu tio esta no meio. O tio Lamilton sai do quarto que estava com a mão na boca, dizendo que vai vomitar, todos ficam assustados, e ele tenta passar por onde estou (uma espécie de corredor) como se buscasse o banheiro que fica 2 cômodos após a sala que estamos e não consegue por que tem muita gente, nesse momento que grito: “Tio Lamilton vai lá para frente” (ou seja, no outro sentido da casa).Ele me ouve , muda de direção, mas vem o vomito que mesmo com a mão na boca respinga na minha perna. Depois que ele vomita na porta da casa, volta para o mesmo quarto que estava deitado, dá um grito alto como se fosse uma respiração forte pela boca e depois fica um silencio, a companheira do tio Neguim que esta próxima desse quarto entra correndo e grita:” gente o Lamilton morreu!”. Nesse momento foi um corre... todo mundo assustado...as pessoas comentam: “meu Deus gente, um morre em um dia e o outro morre no outro! “Tem um fato interessante que no dia do enterro dos meus dois tio, um deles o tio Neguim tem casamento marcado para esse dia; E quem estava no compromisso de levar os noivos para o fórum é a minha irmã Juliana. No velório eu choro muito, perdi dois tios de uma vez... lembro de abraçar chorando o Tio Nieldo (ele não mora em Barreiras e tem um bom tempo que eu não o vejo) que também chorava muito, perdia os 2 irmãos de uma vez. Durante o velório meu marido chega de carro e me busca junto com meu filho mais novo, ele me leva para a casa do Renato. Antes de entrar nessa casa do Renato (que eu não sabia onde era), ao lado tem uma casa que não é estranha, é a casa da Olara, e na frente da casa da Olara tem vários cachorros de várias raças (+/- uns 20), eu olho e fico assustada com a quantidade de cachorro e penso: “meu Deus que tanto de cachorro é esse?!”. Meu marido comenta que a Olara faz um trabalho voluntário de cuidar de cachorros de rua (e ela realmente ama cachorro) fornecendo ração, tipo um lar temporário. Já na casa do Renato, quando eu entro, observo que tem várias malas abertas (parecendo que eles acabaram de chegar de viagem e estão tentando organizar o que trouxeram). A Tatiana me recebe na porta, se comove com a minha situação, e me convida a sentar. A casa esta em processo de organização (malas espalhadas pela casa e os móveis cobertos de tecido com um pouco de poeira, mas eu não sei q casa é essa). Eu retiro um tecido de um sofá e deito um pouco, me sinto exausta. Depois de descansar um pouco nesse sofá, levanto e peço Tatiana uma toalha para tomar banho. Ela fica procurando em qual mala esta e tem dificuldade. Dirijo-me ao banheiro enquanto ela procura e saio do banheiro depois do banho sem toalha e sem roupa (literalmente pelada). Procuro a roupa que eu estava vestida e não acho, pergunto e Tatiana e ela informa que colocou junto com as roupas sujas da família dela pensando que era sua, mas tem tanta roupa suja que ela não consegue encontrar a minha e nada da toalha também. Nesse momento (eu na sala pelada e Tatiana procurando a tolha e minha roupa) o Renato entra e eu nem aí que estou pelada, fico normal... e ele olha para mim com uma olhar de pena, e me faz-me sentir que estou tão debilitada que nem estou ligando que estou sem roupa, mas ele não me constrange, pelo contrario, olha para mim, e me da uma camiseta dele bem grande e pede para eu me vestir, para me proteger. Não me lembro de se vestir ou não a sua camiseta. Nesse momento o filho mais velho deles chega da escola com muitos colegas todos de uniforme de uma determinada escola, ele me cumprimenta e pergunta por que eu estou chorando, me dá um abraço (nesse momento já estou vestida) e a casa fica cheia de criança correndo e brincando. Eu chamo meu marido para ir embora porque o clima da casa de muito barulho me incomoda, procuro meu filho mais novo e eu demoro encontrar ele, mas parece que meu marido fica conversando e eu não quero mais ficar ali, chamo minha irmã para vir me buscar. No caminho minha irmã informa que o casamento vai acontecer porque já estava marcado, mas quem vai levar os noivos será minha mãe, porque minha mãe não quer ir ao enterro (minha mãe tem um bloqueio em relação a enterro, raramente ela participa).

(nesse momento eu acordo para buscar meu filho mais novo que acorda e retorno a minha cama, consigo dormir novamente, mas esse sonho não continua, eu inicio outro).”


ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS: Foram várias associações que não traria sentido nesse contexto para quem lê no site, portanto não foram colocadas.

CONTEXTO RELATADO E VIVIDO PELA SONHADORA

A sonhadora relatou que o seu filho mais novo apresenta algumas necessidades no seu comportamento, sendo diagnosticado dentro do Transtorno do Espectro Autista. Ela já pontuava junto aos familiares sua preocupação e angústia diante de alguns comportamentos que o filho apresentava, mas os familiares não compartilhavam das mesmas suspeitas. Quando o filho mais novo entrou na escola, ela foi abordada pelos profissionais da escola de uma forma ríspida e sem critérios sobre o comportamento do filho. O comportamento do filho foi abordado pela escola da forma mais desagradável. A avaliação de uma escala foi feita na presença dela com utilização de termos desconhecidos e que muitas vezes não condiziam com o desenvolvimento do seu filho. Até então a escola não relatava nenhuma dificuldade. Ela ficou muito abalada e sem direção... Procurou terapias e estímulos constantes para o filho. Foi diagnosticado dentro das características do TEA leve. A luta a procura de estímulos para seu filho, o medo da discriminação e as limitações quanto a sua autonomia tomaram conta dos seus dias com muita angústia, medo e insegurança.

Recentemente seu filho frequenta outra escola e seu início foi desesperador para a mãe que reviveu toda a situação da primeira escola e o medo do seu filho não se adaptar. Mas relatou que ele está se desenvolvendo na linguagem, comportamento e interação social, com uma excelente adaptação com a professora e os coleguinhas.


INTERPRETAÇÃO

A analisada está atravessando um momento de conflito e busca do equilíbrio. O sonho revela a procura de uma reorganização psíquica que traga paz a sonhadora. O equilíbrio entre forças contrárias estão presentes desde a primeira cena. Percebemos no sonho a revelação de uma desarmonia interior e de angústia emocional, como também o seu desejo de resistir a todo o conflito. “O sonho fornece a sonhadora uma linha mestra de como lidar com as situações de desequilíbrio emocional e seguir sua própria estrela, a fim de realizar a paz interior que tanto procura.” (VANS FRANZ, 1996, s.p).

O velório e o casamento são os dois rituais humanos que aparecem no sonho. Os dois rituais representam em diversas culturas gestos de cura. Segundo Franz (1996) “Trata-se de desempenhos simbólicos que curam as feridas psíquicas e nos ajudam a efetivar grandes transições da vida.” O sonho diz para a sonhadora: É preciso superar as dificuldades e as feridas, seguindo em frente.

Os opostos aparecem no sonho através do seu animus nas cinco figuras masculinas conhecidas. Duas delas aparecem mortas e uma com um estado emocional bastante abalado. Revela como ela se sente diante dos novos acontecimentos da sua vida. Com sentimentos de TRISTEZA, DOR E RESISTÊNCIA. O tio Laerte morto representa que a RESISTÊNCIA dela encarar as situações novas está indo embora. A sua vontade de falar do seu filho e a sua mágoa em relação à forma que a antiga escola abordou um assunto tão delicado está representado pelo vômito do tio que em seguida no sonho morre também. Dois tios mortos no sonho é como se revelasse que sua força e energia estivessem acabando. O que demonstra sua TRISTEZA E DOR aos novos desafios que a vida vem apresentando a ela.

As outras duas figuras masculinas (Seu marido e seu amigo) revelam o seu dinamismo na busca de coragem e espiritualidade para enfrentar a situação. As palavras CUMPLICIDADE, COMPANHEIRISMO E ATENÇÃO revelam o seu movimento para encontrar soluções para o seu problema. “Positivamente, o animus na mulher é a capacidade de ter coragem, de desenvolver o intelecto e a espiritualidade.” (VANS FRANZ, 1996, s.p). Efetivamente a sonhadora tem procurado forças e alternativas para conviver com a realidade das limitações e potencialidades do seu filho mais novo na busca de coragem e espiritualidade para se adaptar as novas situações.

A sonhadora busca todos os meios possíveis e um esforço fora do comum para auxiliar o seu filho na busca de estímulos para superar comportamentos que estão dentro do Transtorno do Espectro Autista. Ela segue seus instintos de mãe, procurando todas as possibilidades possíveis, mesmo isso causando muito BARULHO, que representa todas as falas e opiniões de especialistas e pessoas. O sonho utiliza o cachorro que representa a nossa natureza instintiva. Segundo Franz (1996, s.p) “os cachorros orientam-se pelo faro... Ele representa o lampejo instintivo ou a intuição que nossa mente computadorizada embolou.” É como se o sonho dissesse: Siga seus instintos de mãe e corre atrás de todas as possibilidades para CUIDAR do seu filho, mesmo que isso possa abalar seu emocional e suas mediações como mãe. Podemos constatar que as grandes descobertas de métodos e como orientar as crianças que estão dentro do Transtorno do Espectro Autista deve-se ao trabalho instintivo das famílias.

A palavra VIAGEM revela a sua vontade de fugir de tudo isso e se sentir CONFORTÁVEL diante desse fato novo na sua vida. Quanto a sua ida ao banheiro e ao BANHO revela a sua vontade de purificar-se de todo esse desconforto que esta nova realidade apresenta. “O banheiro tem o simbolismo da purificação pela água... Quando as pessoas emergem da água, elas vestem roupas brancas para indicar que estão purificadas e agora começam uma nova vida...” (FRANZ, 1996, sp.).

A sonhadora revela esse processo de purificação quando não encontra mais a sua roupa que está suja. Esse desenvolvimento do sonho revela à necessidade dela deixar o desespero, a angústia, as dúvidas e o medo em relação ao diagnóstico do filho e as possibilidades de sofrimento que isso pode acarretar na sua vida. O movimento da MÁQUINA DE LAVAR é uma analogia do movimento que será preciso acontecer na psique da sonhadora que envolverá processos e fase.

Quando a sonhadora aparece pelada e destaca a palavra LEVEZA revela sua necessidade de não cobrir nada e mostrar todas as suas fragilidades e ao mesmo tempo suas potencialidades diante daquela situação e se voltar para o seu eu. De acordo com Franz (1996) estar nu sempre significa ser pura e simplesmente aquilo que se é sem velar ou cobrir nada. É uma forma da sonhadora se sentir CONFORTÁVEL para encarar a realidade tal qual como apresenta e aceitar seu filho com suas necessidades e potencialidades.

No sonho aparece um menino, filho mais velho do casal, com um abraço que consola a sonhadora que chora. “Um menino no sonho de uma mulher em geral quer dizer um novo empreendimento, porque se você os observar, os meninos são o modelo da ação incessante. Jung dizia que um menino simboliza um empreendimento honesto”. (FRANZ, 1996, s.p). O sonho diz para a sonhadora superar a fase inicial quando foi abordada em relação às limitações do seu filho, o medo e a angústia e permitir-se a realização de mudanças desses sentimentos, pois a tarefa dos novos desafios será difícil e trabalhosa.


REFERÊNCIA

  • FRANZ VAN, Marie-Louise. O Caminho dos Sonhos. Ed. Cultrix Ltda. São Paulo, 1996.

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