Análise Junguiana do Filme: Rambo IV

Turma de Formação em Psicanálise Clínica – T2/2018 da Academia de Terapeutas.

Acadêmica: Lucimar de Souza Oliveira



Escolha um filme, faça uma pequena sinopse do mesmo e identifique o arquétipo principal encontrado no personagem e diga quais são as vantagens e desvantagens que esse arquétipo traz e qual outro arquétipo deveria ser desenvolvido (exceto o Self) para que haja um equilíbrio. Faça o embasamento teórico buscando nos materiais postados na plataforma (apostilas, livros e artigos) pode usar outras fontes também, desde que citada a fonte.


O filme Rambo IV é do gênero de ação, lançado em 25 de Janeiro de 2008 nos Estados Unidos, e no Brasil em 29 de Fevereiro do mesmo ano. Protagonizado por Sylvester Stallone, que também esteve à frente da direção, roteiro e produção do longa metragem.


Uma guerra civil se passa há quase 60 anos na fronteira com a Birmânia, envolvendo os birmanenses e a tribo Karen. Jonh Rambo ( soldado boina verde e ex-combatente de guerra do Vietnã) vive no norte da Tailândia, onde pilota um barco no rio Salween e captura cobras venenosas para vender. Tentando levar uma vida tranquila, simples e solitária nas paisagens naturais da Tailândia, às margens do rio Salween, seus dias são repletos de silêncio e sossego, apenas acompanha o desenrolar dessa sangrenta guerra. Seu silêncio é interrompido quando surgem Sarah Miller( Julie Benz) e Michael Burnett ( Paul Schulze), dois missionários que desejam levar alimentos e remédios às vitimas da guerra. Inicialmente relutante, o veterano Rambo aceita a proposta de levá-los pelo rio a uma zona de guerra chamada Burna. Mas dez dias depois, o pastor Artur March ( Ken Howard) o procura, dizendo que os missionários foram capturados e que havia recolhido dinheiro para contratar mercenários para resgatá-los. O pastor agora quer que Jonh Rambo leve os mercenários até o local onde ele deixou os missionários, mas ele também decide participar da operação de resgate. Por mais que tentasse se esconder, o chamado à aventura, o confronto novamente o encontra, indo na contramão da perda de seus aliados do passado e até do renegar de sua identidade.Uma vez chegando ao lugarejo que procurava, começa um confronto, um massacre étnico sem precedentes, com sequência de tiroteios, poucos diálogos e muito sangue, até o resgate dos prisioneiros. O filme se encerra com a despedida do personagem, que após a missão ser cumprida, caminha, aparentemente “perdido”, não sabendo por onde começar em direção à fazenda de seus pais, tentando resgatar uma faceta mais branda e humana, distante de si desde a época em que foi enviado às fileiras do exército, buscando, portanto, reaver o que sobrou de sua própria alma. Disposto a passar por mais uma transição em sua vida.


A proposta deste fórum é para escolhermos um filme, fazer uma sinopse sobre o mesmo e identificar o arquétipo principal encontrado no personagem e quais são as vantagens que esse arquétipo traz e qual outro arquétipo deveria ser desenvolvido( exceto o self) para que haja um equilíbrio.


A concepção da psicologia analítica sobre os arquétipos surgem com as contribuições de Carl Gustav Jung ( 1875-1961), que foi um dos psiquiatras mais importantes de sua época. Para Jung, os arquétipos são conjuntos de “imagens primordiais” originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo e se assemelham mesmo em lugares diferentes, culturas, regiões e crenças divergentes.


Os arquétipos nos ajudam a satisfazer algumas de nossas principais necessidades, como a necessidade de realização, pertença, independência e estabilidade.

No filme Rambo IV, percebemos Jonh Rambo no caminho de sua individuação, passando a seguir o caminho o qual estava destinado a seguir, traçando metas e procurando um sentido para realizar sua personalidade originaria e seu potencial. O processo de individuação consiste em confrontar os vários aspectos sombrios, reconhecendo-os e despindo-se da persona e das imagens primordiais. Segundo Jung, o processo de individuação nada tem de individualismo, muito pelo contrário, é um processo que estimula o indivíduo criar condições para que cada um desperte o melhor de si e do outro, o tempo todo, fazendo-o sair do isolamento e empreender uma convivência mais ampla e coletiva, por estar mais próximo, conscientemente da totalidade, mas ainda mantendo sua individualidade.


O personagem Jonh Rambo apresenta como arquétipo principal o Herói, procurando provar seu próprio valor enfrentando desafios por meio de ações corajosas e difíceis. Suas virtudes são a competência, coragem e disciplina colocadas a favor dos mais fracos e oprimidos. Virtudes essas, vistas com muita clareza, por Jonh Rambo no decorrer do filme durante toda a operação de resgate dos missionários da zona de guerra. Durante as adversidades que foram aparecendo nessa jornada para a liberdade dos prisioneiros, ele não demostrou fraqueza e não abandonou o desafio que lhe fora proposto, não importando quão difícil fosse a situação enfrentada para realizá-lo com sucesso. Esse arquétipo se apresentou ativo no personagem lhe fortalecendo na luta contra todas as injustiças e atrocidades que presenciou e vivenciou, fazendo com que respondesse rápida e decisivamente nos momentos de combate, confronto, pressão e estresse. Dessa forma, ao acessar os conteúdos arquétipos, Jonh Rambo iniciou um processo criativo ( se aliou a um grupo de mercenários, elaborou planos de resgate, criou armadilhas, providenciou equipamentos, conseguiu armas), sendo ele mesmo o agente de transformação para a realidade que lhe foi apresentada, passando por diversas provas, e alçando êxito em todas elas.


Outro arquétipo que deveria ser desenvolvido pelo personagem Jonh Rambo para que haja um equilíbrio, seria o arquétipo do cara comum, que está frequentemente associado aos sentimentos amenos e tranquilos, não querem se destacar, mas sim se enquadrar num esquema num esquema em que se sintam parte integrante de maneira efetiva, diferentes do arquétipo do herói. As pessoas que apresentam o arquétipo ativo do Cara Comum, muitas vezes anulam suas vontades e desejos para seguirem o grupo. Tem como maior desejo o de estabelecer conexão com os outros e teme não ser aceito ou ser rejeitado por suas ideias. E como estratégia nivelar-se utilizando virtudes comuns. Apresenta como talento o realismo, a empatia e a falta de pretensão.

Esse arquétipo do Cara Comum traz a marca da humanidade como traço marcante da sua personalidade. Acredita que todos são iguais, independentes de religião, gênero ou classe social e que, por isso, não precisa usar subterfúgios e artifícios para parecer melhor e mais interessante. Dessa forma, Jonh Rambo poderia encontrar o equilíbrio, pois enquanto, o Herói ( protagonista da história mostrada no filme) quer ratificar ou provar algo, tentando sempre superar seus limites, melhorar o mundo em diversos aspectos fazendo dele um lugar melhor. O Cara Comum é inofensivo, tranquilo, realista, sem vaidades, prefere o simples. Tem como modo de vida: O menos é mais, vive sem precisar de muito para se sentir pleno e feliz. Procura ser igual a todos sempre buscando companhias. É apenas, mais um na multidão.


Joseph Campell, (antropólogo norte-americano) estudioso nas áreas de mitologia e religião comparada e dos arquétipos, um dos seguidores de Jung, buscou estudar e compreender mais especificamente o arquétipo do herói. Seus estudos, que unem mitologia e psicologia, resultaram na obra O herói de mil faces (2000), onde o autor esclarece que o monomito – a trajetória feita pelo herói durante sua jornada – se divide entre três partes, sendo elas a partida, a iniciação e o retorno, e que a jornada do herói, por sua vez, se desenvolve em 12 estágios principais.


No filme Rambo IV, percebi que o roteiro seguiu justamente os estágios da Jornada do Herói criada por Campell. Jonh Rambo percorreu todo esse caminho até conquistar sua meta, aceitando novos desafios e toda dificuldade para vencer cada etapa de aprendizagem dentro de cada escolha, enfrentando seus medos, enfrentando uma série de obstáculos, que o fez crescer tornando-o mais forte no final da jornada.


Para melhor ilustrar, colocarei a seguir os estágios que nosso herói Rambo passou nessa jornada de um herói. Segundo Campell são eles:


  • Mundo Comum: O mundo normal do herói antes da história começar: Jonh Rambo levava uma vida solitária e tranquila, convivendo com paisagens naturais da Tailândia, às margens do rio Salween. - O Chamado da Aventura

  • Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura: Jonh Rambo é convidado a sair de sua zona de conforto quando os missionários Sarah Miller e Michael Burnett, o convidam para ajudá-los a levar alimentos e remédios às vítimas da guerra.

  • Reticência do Chamado ou Recusa do Chamado: O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura: Jonh Rambo recusa o convite para transportar os missionários em seu barco até a zona de guerra.

  • Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural: O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura: Os mentores que o faz aceitar são: Inicialmente Sarah (missionária), num segundo momento Artur March (pastor). Ambos passaram informações, orientações, aconselharam, deram todo apoio e conhecimento necessário sobre a missão e o prosseguimento dessa jornada.

  • Cruzamento do Primeiro Portal: O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico:Travessia pelo rio Salween até chegar ao lugarejo chamado Burna, onde estão as vítimas da guerra. E posteriormente, o local(acampamento de guerra) onde os missionários foram feitos de reféns.

  • Provações, aliados e inimigos: O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial: No primeiro momento Jonh Rambo faz a travessia do rio sozinho e leva grupo de missionários, onde há um confronto no rio com um grupo de “piratas/ saqueadores” fortemente armados e mal intencionados. No segundo momento recebe ajuda de soldados mercenários contratados pelo pastor Artur para ajudá-lo no resgate. Nessa segunda travessia salva um pequeno grupo de asiáticos que seriam assassinados pelos militares. Através desse salvamento, Jonh Rambo percebeu quão sanguinário e cruel seria o grupo de soldados que iriam enfrentar.

  • Aproximação: O herói tem êxito durante as provações: Rambo e seu grupo invadem o acampamento dos soldados, no próprio veículo confiscado dos militares quando salvaram um grupo de asiáticos, iniciando discretamente os primeiros resgates. Nesse momento do roteiro começamos a perceber uma crescente dos fatos.

  • Provação difícil ou traumática: A maior aventura, de vida ou morte: Grande confronto entre os dois grupos, após os militares perceberem que os prisioneiros estavam sendo libertados por Jonh Rambo e seus companheiros de batalha. Tiroteios, mortes, torturas, muita violência e sangue. Um verdadeiro massacre.

  • Recompensa: O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir), e o usa para ajudar todos no mundo comum: Jonh Rambo (com a ajuda do grupo de mercenários), consegue sair vitorioso em cada confronto, batalha e obstáculos que foram surgindo durante a jornada.

  • Caminho de volta: O herói deve voltar para o mundo comum: Fora da área de confronto, após já ter libertado alguns prisioneiros, planeja novas estratégias, novos planos de fuga para que todos sejam libertados.

  • Ressurreição de Volta: Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido: Nesse momento ocorre o maior confronto, o clímax final da história, quando Jonh Rambo toma posse de um veículo com uma potente metralhadora acoplada. Nesse último teste, luta pela última vez, testando todos os seus limites e colocando em prática tudo que aprendeu nos anos que foi soldado no Vietinã, para vencer seus inimigos e, assim, libertar o grupo.

  • Regresso com o Elixir: O herói volta para casa com o “elixir”, e usa para ajudar todos no mundo comum: Jonh Rambo retorna da batalha mais forte, pois diante de tudo que passou não é mais o mesmo e não irá mais enxergar as coisas da mesma forma. Vai procurar ser uma nova pessoa e busca um novo recomeço quando decide procurar seus pais, retornando à uma fazenda simples, tranquila e aconchegante, disposto a recomeçar ao lado de sua família. É possível concluir, após essa analise, que esses estágios nada mais são, que as fases de nossas vidas, tanto profissional quanto pessoal, e nos passa uma mensagem de persistência e foco, em meio à fantasia e sofrimento da vida. É compreensível, assim, dizer que a figura do arquétipo do herói representada pelo personagem Jonh Rambo, seja para nós, uma idealização dos seres humanos , que são desafiados a serem melhores nos combates do dia-a-dia, que avançam apesar dos medos, movidos por uma força maior que é a força do self.


  1. Apostila: \introdução à psicologia analítica de Carl Gustav Jung-parte 1. Academia de Terapeutas. Por Lucio de Faria Teixeira e Marlene Euclides da Silva, Agosto de 2018

  2. http://www.heroisemitos.com.br/2012/12/a-jornada-do-heroi.html

  3. www.jungnapratica.com/o-heroi-que-habita-em-nos

  4. www.cineclick.com.br/criticas/rambo - www.cineclick.com.br/criticas/ramboIV

  5. https://psicoterapiajunguiana.com/conceitos/processo-de-individuação

  6. https://www.catho.com.br/carreira-sucesso/colunistas/noticias/voce-conhece-a-jornada-doheroi-de-joseph-campbell/1

112 visualizações

© 2019 - Instituto Âmago