Análise do pequeno Hans, de Freud

Acredito também que seja possível fazer uma associação do desejo de extermínio do pai à pulsão de morte e uma associação do desejo de exclusividade da mãe, com a pulsão de vida, termos também elaborados por Freud. Acadêmica: Riva Andrade


Em “Obsessões e fobias” (1894) Freud propõe que “a fobia faz parte de uma neurose de angústia e sua causa seria uma acumulação de tensão sexual produzida pela abstinência ou pela excitação sexual não consumada” (FREUD, 1894, p. 83). Freud ainda diz que a fobia se origina de uma parcela de libido que foi desligada de sua representação pelo recalque e liberada no aparelho psíquico, onde foi descarregada em forma de angústia.


No caso do pequeno Hans, a angústia “vivenciada” por ele tinha relação direta com o acúmulo de tensão sexual devido à “excitação sexual” pela mãe, não consumada, e com o recalque do desejo de aniquilamento do pai, seu “rival” na ‘luta” para ter a mãe como objeto de amor (complexo de Édipo, natural aos 5 anos, idade de Hans). Como querer eliminar o pai, se ele, Hans, o admirava, identificava-se com ele por ser do mesmo gênero sexual? Em função disso, Hans acaba sendo assolado por uma imensa angústia. Se o pequeno Hans, estando apaixonado pela mãe, mostrara medo do pai, não podemos apenas dizer que tinha uma neurose ou uma fobia. O que transformou a "experiência" de Hans em neurose foi a substituição do pai por um cavalo. Tal deslocamento é possível na idade de Hans porque as crianças ainda não reconhecem as diferenças que separam os seres humanos dos animais (no caso de Hans ter associado cavalo ao pai, é provável que a presença do falo em ambos o levou a uma identificação entre eles). O conflito é contornado pelo ódio que é dirigido para o cavalo (associado com seu pai). Ele vira um cavalo cair e desejou que seu pai também caísse e se ferisse. A fobia ao cavalo talvez tenha sido uma forma de lidar com o conflito de amor e ódio pela mesma pessoa (posição edipiana).


Acredito também que seja possível fazer uma associação do desejo de extermínio do pai à pulsão de morte e uma associação do desejo de exclusividade da mãe, com a pulsão de vida, termos também elaborados por Freud.


Apesar do sofrimento de Hans, ao longo do vivenciamento com a angústia de não poder aniquilar o pai e ter a mãe como objeto de amor, em não conhecendo a estória dele na íntegra, presumo que, muito possivelmente, houve limites naturalmente colocados pelo próprio pai a Hans de forma que este o entendesse na intenção de comunicar que “aquela mulher já pertencia a um homem”, no caso, o pai, como se dissesse: “Ei! Esta mulher é minha”. Esse “corte” foi fundamental para que se desenvolvesse uma relação saudável entre os três que, se conduzida sem limites, poderia ter levado a uma relação triangular “patológica”. É possível, então, pressupor, tendo por base a fase específica do pequeno Hans, que o pai e a mãe do garoto tinham uma boa relação, o que, para Hans, foi muito saudável, pois, do contrário, poderia ocorrer o complexo de Édipo disfuncional (abordagem feita pela psicanalista Raimunda na apostila de Psicanálise Infantil à pág. 14.). No complexo de Édipo disfuncional “o pai e a mãe não têm uma boa relação e o pai não se importa com a atenção que a mãe dedica ao filho, ou seja, não faz o corte”. É interessante que podemos verificar que o pai, demostrando sabedoria, se importou com a fase do filho, observando-o e procurando apoio em Freud, o que demonstra, com clareza, a busca por uma condução saudável na relação triangular que ali se fez presente. Ainda bem...Se não, "a culpa seria da mãe"... ;)


Em se considerando a forma como tudo indica que o complexo de Édipo do garoto foi conduzido pelo pai dele (muito provavelmente com o apoio da mãe, fundamental na condução saudável das fases de um-a filho-a), temos também um indicativo de que a chance de uma fixação na fase fálica ter sido desenvolvida por Hans foi reduzida. Certeza que teremos apenas se soubermos como a estória de Hans se desenvolveu após a fase em questão… ;)


Apenas a título de contribuição, desde que tive um conhecimento maior sobre o desenvolvimento do complexo de Édipo, passei a me questionar sobre como seria visto e até mesmo aplicado um conceito que, teoricamente, envolve uma família tradicional (pai-homem, mãe-mulher e filho-a) nos dias atuais, quando temos famílias constituídas de formas tão diversificadas. Então, nos meus estudos e pesquisas, encontrei um artigo bem interessante que aborda a respeito. Segue o link para os que tenham interesse em ler: http://www.scielo.br/pdf/pcp/v36n3/1982-3703-pcp-36-3-0696.pdf


Um abraço a todos! Vamos juntos!


FREUD, Sigmund; Obsessões e fobias; 1894.

www.alemdodiva.com.br

Apostila de Psicanálise Infantil, elaborada pela psicanalista Raimunda da S. Pires.

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